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Telemarketing e assédio moral: exemplo a não ser seguido

Por Emily Sobral

Twitter: @EmilySobral       Periscope: @emiliasobral61

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Operador de telemarketing. Quem quer ser?

Não vou mentir, mas quando recebo ligação da Ossel, fico uma fera com o operador. O objetivo do contato telefônico é vender plano funerário. Tenho certeza de que não sou a única a viver uma experiência fúnebre e irritante como essa, afinal, a Ossel mantém um serviço organizado de telemarketing.

Entendo que, hoje em dia, até para morrer tem que pagar. Em geral, respondo bem mal humorada, que não quero me preocupar com os custos do meu sepultamento. E desligo o aparelho, sem dó nem piedade. Bem, sabemos que a situação econômica não está fácil para ninguém e, com índices de desemprego tão elevados, todo trabalho deve ser bem-vindo. Quer dizer, nem todos…

Abro este post com a história real da Ossel para falar dos riscos ocupacionais aos quais estão expostos os operadores de telemarketing. De fato, o setor de teleatendimento é um dos que mais emprega no País, mesmo com a crise. E, para muitos brasileiros, esse é o primeiro emprego. Em algumas empresas, no entanto, essa atividade pode esconder humilhações, pressões exageradas por resultados e traumas psicológicos, por causa da rotina de abusos no outro lado da linha, que contraria direitos trabalhistas. No Brasil, atualmente, são mais de dois milhões de operadores, dos quais 64% têm entre 18 e 29 anos. A dura realidade é que, atrás da linha de telefone, há um operador tentando vender um produto para alguém que não quer comprá-lo. A atividade é, em sua essência, desafiadora. Pior, o sistema de bater metas tem levado ao adoecimento psicológico de muitos trabalhadores. Relatos que chegam à justiça do trabalho, em processos por assédio moral, são vexatórios. Funcionários que eram controlados quando iam ao banheiro, humilhações no ambiente da empresa por não terem conseguido vender o limite estipulado e, até, a agressão verbal pelo cliente que se sente incomodado com a ligação. Essas situações resultam em doenças e, consequentemente, adoecido pelo trabalho, o empregado vai tentar ser indenizado por meio judicial.

Não é fácil mesmo enfrentar uma rotina laboral tão humilhante e estressante. Segundo contam alguns trabalhadores que viveram por um período como operadores de telemarketing, o supervisor e o gerente do setor passam por eles, cobrando resultados.

O psicólogo do Distrito Federal que pesquisou esses trabalhadores, Vitor Barros, constatou que 34% deles sentem-se sobrecarregados, 30% pensaram em desistir de tudo e outros 30%, cogitaram suicídio. A cobrança extrema para cumprir metas impostas pela empresa deve ser repensada, e a organização do trabalho no teleatendimento também precisa seguir outros parâmetros. Os analistas de call center são seres humanos, e o ambiente de trabalho não pode ser fonte de doenças e acidentes . De que adianta haver vagas disponíveis, se poucos meses depois, os trabalhadores estão sendo afastados por doenças?  Para o empregador, respeito, dignidade e preservação da saúde do trabalhador deve ser uma regra de ouro de conduta. No fim, tudo mais é possível de ser comercializado, até planos da Ossel.

 

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