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Mergulhadores: como ir fundo com segurança

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Karol Meyer Foto: Tiago J Silva

Pois é, até a última segunda-feira nunca tinha escrito sobre medicina hiperbárica. Agora, já volto ao assunto em menos de uma semana. Entrevistei Karol Meyer, que é oito vezes recordista mundial de apneia, o mergulho somente com o ar dos pulmões. Não é para qualquer um. Karol é mergulhadora e já atingiu 121 metros de profundidade e a façanha de ficar submersa em apneia por 18 minutos e 32 segundos, conquista registrada pelo Guinness Book. Quem encara uma proeza assim? Ela, então, passou um panorama abrangente que me permite aprofundar o tema, sob o ponto de vista de SST.

A atuação profissional de mergulho, de fato, envolve riscos. Segundo Karol, as formas de trabalho mais perigosas são aquelas relacionadas aos resgates, defesa e profundidade extremas. O mergulhador comercial, por exemplo, trabalha para empresas que executam serviços submersos, em que, além da habilidade especifica de mergulho, deve haver também formação em solda, mecânica e operações na construção civil (pontes, aquedutos, esgotos, plataformas de petróleo, usina, limpeza de cascos de navios e recuperação de objetos submersos).

O risco do mergulhador que trabalha com resgate, no setor de segurança pública, forças paramilitares, polícias, bombeiros e afins, também é grande. Nesse tipo de mergulho ainda encontra-se uma subdivisão: mergulho raso, com profundidade de até 50 metros e profundo, além dos 50 metros, requerendo câmara hiperbárica e sino para saturação, se necessário. Essa atuação é de extrema importância e muito arriscada, constituída de profissionais de alto nível técnico e certificação internacional. Nessa área, considera-se o mergulho de combate da Marinha, o Grupamento de Mergulhadores da Marinha, de combate das forças armadas, que usa técnicas para resgate, infiltração, sabotagem e espionagem.

A atividade dos mergulhadores é considerada insalubre e deve atender os requisitos da norma regulamentadora (NR) 15, classificada como “trabalhos submersos”. O mergulhador profissional é também classificado como trabalhador aquaviário. Mas, os riscos extrapolam os aspectos de insalubridade ambiental. Por exemplo, o estresse ao qual estão expostos é significativo. Na área do resgate, durante uma busca e recuperação, além de mergulharem em ambientes de grande grau de dificuldade, como águas contaminadas e visibilidade zero, os mergulhadores lidam com a função de resgatar acidentados ou cadáveres.

“Mas, sem dúvida, o mergulho comercial é o mais perigoso, pois o risco é diretamente proporcional à remuneração”, diz Karol. Ou seja, quanto mais arriscada for a ação de mergulho, mais o profissional será recompensado financeiramente. Com o fator cifrão prevalecendo, obviamente, há muitos adeptos nesse setor. “Sobretudo nos setores petrolífero e naval, os mergulhadores profissionais conhecidos como «off-shore» têm uma enorme procura para serviços específicos, como limpar cascos de navios, limpar e desobstruir comportas, descongestionar hélices, fazer inspeções nas plataformas, entre outros serviços de extrema dificuldade”, conta. Como esses serviços ainda não podem ser desempenhados por máquinas, pois requerem um grau de precisão humano, a atuação tem mercado garantido. Mas, os riscos são evidentes, já que essas atividades exigem que os mergulhadores permaneçam muito tempo no fundo do mar, por vezes, trabalhando durante vários dias sob condições hiperbáricas, submetidos à mesma pressão, até o trabalho ser concluído.

Segundo estudo da Organização Internacional do Trabalho, os mergulhadores de plataformas petrolíferas são dos mais arriscados, principalmente pela profundidade e tempo de exposição às grandes profundidades. Mas, não somente, há complexidade na atividade. Por suas características, o trabalho nas plataformas inclui uma ampla diversidade de atividades. Distantes da costa e de socorros imediatos, os profissionais precisam de alimentação e alojamento, energia elétrica, compressores e bombas, água, transportes para a costa (barcos ou helicópteros), meios para cargas e descargas, telecomunicações e botes salva-vidas, além de outros meios de salvamento, o que requer um elevado nível de coordenação.

Karol lembra que há o período de dias de trabalho embarcado no mar e dias de descanso em terra varia. Em países como o Reino Unido, a alternância é de 14/14, nos EUA, de 7/7, ou progressão de 14/14 no primeiro ciclo, 14/21 no segundo ciclo e 14/28 no terceiro ciclo (Noruega). Em geral, durante o período de embarque, o mais comum são 12 de trabalho para 12 de descanso. Mas, o período de horas efetivamente trabalhadas, incluindo as extras, pode chegar  a 14 horas. Há alguns postos de trabalho em que a jornada pode chegar a 17 horas. De qualquer modo, independentemente da modalidade de turnos estabelecida, alguns trabalhadores permanecem de prontidão durante todo o tempo em que se encontram na plataforma.

O mergulho profundo, que compreende distâncias entre 50 metros e 320 metros da superfície, é sempre feito por dois mergulhadores que descem para realizar serviços de manutenção e conexão de dutos, instalação de equipamentos, soldagens, coleta de material de filmagens. “São vários dias isolados de tudo. A partir do momento em que entram na câmara hiperbárica, instalada no navio, os mergulhadores são submetidos a uma pressão atmosférica equivalente à do mar. A pressurização leva 24 horas. Da câmara, eles vão para o sino, que irá conduzi-los ao fundo mar.  Durante a intervenção, um mergulhador fica no sino e o outro no mar. Ambos estão ligados por um “cordão umbilical” para que o mergulhador que estiver no mar receba água quente, gás hélio, oxigênio etc. Os mergulhadores só podem permanecer por oito horas fora do sino. O percurso câmara-sino-mar dura 20 dias. Na volta, a pessoa fica mais sete dias na câmara, para a despressurização, ou seja, para que volte à pressão atmosférica normal da superfície. Ao longo desses dias, o mergulhador se alimenta, dorme e toma banho normalmente, no espaço restrito da câmara hiperbárica”.

Além de acidentes durante as intervenções, restringindo o assunto ao mergulho em profundidade, a maioria apresenta sintomas de algumas doenças e traumas que aparecem em função da pressão.Os sintomas aparecem ao longo do tempo. Os traumas por pressurização, conhecidos como barotraumas, são causados por obstruções à livre movimentação do ar nos espaços aéreos do organismo, particularmente nas cavidades aéreas cranianas e são a causa mais frequente de acidentes. Além disso, como o barotrauma o leva a desistir do trabalho, devido a perturbações, o mergulhador quase sempre perde o emprego por ser considerado desqualificado para o serviço.

Outras doenças que acometem esses profissionais são embolia traumática pelo ar (ETA); efeito narcótico do nitrogênio;  hipotermia (queda de temperatura); intoxicação por gases;  doença descompressiva; e  apagamento (desmaio) sem devido socorro.

“Uma área de atuação extremamente perigosa, amplamente utilizada e ainda não regulada, é o mergulho extrativista. Em regiões distantes e de escasso recurso, profissionais são explorados em mergulhos scuba (cilindro de ar comprimido) ou uma adaptação perigosa chamada de mergulho com compressor para capturar lagostas ou pedras preciosas. Essa área carece de normas de segurança e atençao imediata”, afirma. O compressor é, na verdade, um botijão de gás adaptado para uso como reservatório de ar comprimido, ligado por um tubo até a boca do mergulhador, conhecido popularmente como ‘cafanguista’.

Além de extremamente arriscada, sem normas de segurança, a atividade de pesca extrativista gera um grande e negativo impacto econômico e ambiental, além de diversos problemas de saúde aos mergulhadores. “Já recebi consultas de esposas desesperadas para entender o porquê do falecimento do marido. São pessoas de pouca instrução, que, na busca por trabalho, sujeitam-se a tais condições”, afirma.

Ah, mergulhador pode trabalhar ainda com atividades recreativas, que conheço bem, pois minha amiga e jornalista, Maria Ângela Figueiredo é praticante assídua e acha “sensacional”. Quando divulga as fotos de Galápagos, Abrolhos e Fernanda de Noronha, por onde já mergulhou, fico com água na boca. Mas, é claro, falta-me coragem. Volto à Karol, que durante o sétimo congresso de medicina hiperbárica, de 15 a 18, realizará o Workshop Apneia Total Karol Meyer. Karol, esta não é fraca, não!

Por Emily Sobral

 

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