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OIT já considera a enfermagem uma das profissões mais estressantes da atualidade. Imagine para quem trabalha no INCA

Por Emily Sobral

Twitter: @EmilySobral       Periscope: @emiliasobral61

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Como salvar os enfermeiros do INCA (Foto: Pixabay)

Às vezes, a cabeça pega fogo por não aceitar os absurdos que acontecem no País. Começo a destravar, expondo a aversão que tenho por normas, leis e regulamentos que não saem do papel. Escutei uma entrevista do enfermeiro Juliano dos Santos, no site Podprevenir, que é um exemplo de como andam as coisas no Brasil, ou mais especificamente, no Instituto Nacional do Câncer (INCA). Trato hoje, é claro, da questão de saúde e segurança do trabalho, em serviço de saúde, como é o caso do INCA. Vou ao ponto de Juliano, que defendeu sua tese a partir do estudo com 231 enfermeiros da área de oncologia do instituto. A pesquisa feita pela USP e apresentada em congresso de hipertensão em agosto de 2016 foi, inclusive, premiada. Segundo conta, ele trabalha há seis anos no INCA e lá, nunca realizou um exame médico periódico que, segundo a legislação, deve ser anual.

Ou seja, a ação preventiva para preservar a saúde dos enfermeiros passa longe da gestão em SST em tão conceituada instituição. E logo, justamente, com trabalhadores especializados em cuidar da saúde dos pacientes. Dados preocupantes foram relevados por Juliano, pois os enfermeiros pesquisados vêm adoecendo devido às condições de trabalho. Em geral, esses profissionais submetem-se a carga horária de trabalho elevada, turnos alternados e exposição a pressões psicológicas. Não é fácil cuidar de pacientes com câncer. Tanto que a Organização Internacional do Trabalho já considera a enfermagem uma das profissões mais estressantes da atualidade.

A pesquisa de Juliano avaliou o risco cardiovascular e a prevalência de outros fatores de risco, com destaque para a hipertensão arterial, além de carga que avalia o nível de estresse do indivíduo. Não sou médica, mais li os resultados e os achei alarmantes. Mais de 40% dos profissionais apresentaram níveis de pressões arterial alterados durante o sono. “Isso chamou a atenção porque nesse período é esperado que a pressão arterial diminua. Quer dizer, só essa variável é um fator preocupante, independentemente de ritmo cardiovascular. No entanto, esses profissionais tinham outros fatores associados”, conta. O cortisol estava elevado em 49,4% dos pesquisados, que é um dado que também chamou a atenção porque isso está relacionado ao estresse. “Observamos também que 30% dos enfermeiros estavam com o nível de pressão arterial alterado na marca de 24 horas e 26% de níveis do mapa durante o período de vigília. Além disso, 59,7% deles trabalhavam em turnos alternados, que é um fator de risco cardiovascular”, revela.

Como o atendimento aos pacientes de câncer e seus familiares envolve uma grande carga psicoemocional, o estudo apontou que 66% dos pesquisados apresentaram um estresse moderado e alto; 57%, transtornos mentais comuns;  78%, má qualidade do sono; 55%, exaustão emocional, além da prevalência de 39% de Síndrome de Burnout, que é distúrbio psíquico de caráter depressivo.

Juliano apurou ainda que hábitos desenvolvidos dentro do processo de trabalho também contribuem para potencializar os riscos de adoecimento. Há uma grande prevalência de profissionais que trabalham durante o dia e de noite. Assim, durante a noite, eles alimentam-se muito mal. “Em vez de jantar, comem pizza e churrasco”, afirma. Outra questão: os enfermeiros têm múltiplos empregos, que já é uma característica da área de enfermagem. Mais de 46,7% têm mais de dois ou três vínculos empregatícios. “Por isso, eles têm pouco tempo para fazer uma atividade física”, diz. Segundo ele, o mais preocupante é que o grupo pesquisado é formado por profissionais relativamente jovens, entre 30 e 39 anos.

Solução? Juliano aponta algumas medidas que devem ser tomadas. Inicialmente, o INCA precisa entender que deve ter uma atuação preventiva, especialmente com os profissionais de alto risco. Dar atenção aos enfermeiros que estão adoecendo e tomar providência como, por exemplo, fazer rodízio entre eles, colocando-os em áreas menos estressantes. Outra alternativa é a instituição estimular que os profissionais mantenham hábitos e estilos de vida mais saudáveis, dando-lhes condições da prática de atividades físicas, até no próprio ambiente laboral. Alô, INCA, o profissional que é bem cuidado, trabalha melhor. Tanto eles quanto os pacientes com câncer agradecem.

 

7 Comentários

  1. Jânio Carvalho

    Excelente a pesquisa do enfermeiro. Importante divulgar essa realidade. Pena que o INCA está devendo aos seus empregados

  2. Mariana Silva

    O pior é saber que não são apenas os enfermeiros do INCA que sofrem com os riscos ocupacionais. Isso é uma realidade brasileira.

  3. DENISE MARIA DE LIMA FERREIRA

    Como psicóloga de uma equipe multiprofissional me vejo também nessa situação tão quanto meus colegas enfermeiros que enfrentam doenças ocupacionais, devido aos riscos à saúde e a segurança do trabalho.

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