• Vakinha
    Vakinha
  • Portal PatiSeg
    Portal PatiSeg

Jane e sua motocicleta. Acidente de trajeto cresce, prejudicando empregado e previdência

IMG_7598

Na época do acidente, Jane usava moto para ir ao trabalho

Hoje, Jane Peralta, 47 anos, é uma palestrante vitoriosa na área de segurança do trabalho do site www.amputadosvencedores.com.br, com sede em Londrina, no Paraná. O site foi criado por seu marido, Flávio Peralta, ex-eletricista que perdeu os dois braços num acidente de trabalho. Assim como ele, Jane também tem sua trajetória marcada por superação.

Com apenas 13 anos ela sofreu um acidente de motocicleta quando voltava do trabalho. Sim, na década de 80, um adolescente podia trabalhar e ser registrado. Jane era auxiliar de escritório da construtora do pai. Estudava de manhã, e à tarde seguia para o endereço do escritório em sua moto. Sim, Jane era quem pilotava sua moto. Essa atitude não podia naquela época como não pode ainda hoje. “O nosso futuro depende das escolhas do presente”, reflete ela. Acontece que Jane se sentia madura mesmo adolescente, tinha paixão pelo guidom, e o pai a ensinou a pilotar o veículo de duas rodas, que tanto seduz inúmeras gerações. Por fim, seu pai deu a autorização para que ela fosse de moto ao trabalho.

Certo dia, ao voltar da construtora para casa, Jane foi pega por um Fusca, que avançou sobre sua moto e fugiu sem prestar socorro. O acidente foi grave. O farol cortou sua perna, abaixo do joelho. O membro não precisou ser amputado, mas como o nervo que levanta o pé foi lesionado, ela perdeu o movimento de parte da perna.

Independentemente do que seja legal ou ilegal, há na história de Jane, que ocorreu há mais de 30 anos, uma semelhança com os dias de hoje. O acidente de trânsito envolvendo trabalhadores com motos ocorre e aumentou de forma significativa nos últimos dez anos no Brasil. E as consequências são terríveis para quem se acidenta. Mas o mercado sobre duas rodas continua crescendo por fatores diversos. Tráfego pesado, transporte público ineficiente e pressa. Muitos acham que a moto é a solução. Infelizmente, milhares de pessoas que se acidentaram com sequelas graves constatam que a moto pode ser um grande problema.

É preciso informar que, na época do revés de Jane não havia um benefício acidentário ao trabalhador, ainda hoje pouco conhecido, chamado de Acidente de Trajeto. O acidente que ocorre entre o percurso entre a casa do trabalhador e o emprego e vice-versa, é considerado acidente que se equipara ao do trabalho. Foi em 91, com a Lei no. 8.213, que esse tipo de sinistro passou a dar ao trabalhador o direito de requerer o benefício da previdência social. O acidente de trajeto gera o benefício correspondente a 91% do salário de contribuição. É claro que é preciso observar as regras para a caracterização do acidente de percurso. Se houver a descaracterização desse evento mórbido, e o perito interpretar de forma errada as informações protocoladas, pode indeferir a solicitação. Aí será necessário recorrer às ações judicias para ter o direito assegurado.

Sem pensão por acidente de trajeto, Jane usa as palestras que ministra para refletir sobre esse assunto.

“São tantos acidentes envolvendo motociclistas, que o de trajeto, que antes era exceção, agora parece que virou regra”, alerta Jane. Hoje, por exemplo, um jovem que se acidenta de moto, que deviria continuar contribuindo com a previdência para as futuras gerações, é quem vai precisar do benefício, em especial se ficar incapacitado para voltar ao mercado de trabalho. Para Jane, o rombo na previdência é ruim, e é desvantajoso para o patrão ficar sem o funcionário que treinou. Mas ela lamenta ainda mais que as condições nos ambientes de trabalho gerem tanto estresse a ponto de, indiretamente, propiciarem os acidentes de trajeto dos empregados. “Sabemos que, na maioria das vezes, ele acontece na volta para casa. A desatenção do empregado deve-se, é claro, a muitos fatores, mas que a falta de ambientes salutares de trabalho podem contribuir para que alguém cometa deslizes e acabe sofrendo acidentes, isso existe”, argumenta. Pode não haver correlação entre acidente de trajeto e ambientes de trabalhos agressivos. O tema é aberto a considerações antagônicas.

Porém, quem trabalha com saúde e segurança do trabalho sabe que promover ambientes laborais saudáveis resulta em qualidade de vida. E quem tem qualidade de vida é atento com a sua.

Por Emily Sobral

6 Comentários

  1. Maria Aparecida Andreotti

    O problema são os motoqueiros irresponsáveis. Eles nao prezam pela vida deles e depois quando se acidentam, oneram toda a sociedade, que tem que pagar a aposentadoria deles.

  2. Emily

    Maurício, muito obrigada. Além de manter o foco no bom trabalho, queremos nos superar. Ampliar nossos leitores assíduos é nosso principal objetivo. Abraço.

  3. Jane Peralta

    Maria Aparecida concordo em parte com sua resposta. Muitos motociclistas, como eu, tomam atitudes erradas e são os que mais levam o ônus. Mas, nos falta um planejamento a longo prazo de vida da humanidade. Quando se propõe uma política em que cada um tenha seu carro e compre uma moto com baixo custo e não se investi em transporte público, haverá mais carros e motos na rua. Portanto, eu acho que existe uma responsabilidade mútua de todos. E como será o Brasil daqui há 20 anos se não haver mudança de atitudes de todos? Puxa não dá nem pra imaginar.

Deixe uma resposta



This blog is kept spam free by WP-SpamFree.