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Embargo da União Europeia à exportação de frangos prejudica trabalhadores, mas acidentes e doenças do setor também

Por Emily Sobral

Twitter: @EmilySobral       Periscope: @emiliasobral61

Trabalho em abate de frango vem causando muitos acidentes (Foto Pixabay)

A recente notícia de que a União Europeia proibiu 20 frigoríficos brasileiros de exportar frango para a região caiu como uma bamba no setor. Realmente, esse embargo só piora os números da crise econômica vivida pelo País.  Se não houver uma reversão em curto prazo desse empecilho comercial, a corda vai estourar também para o lado dos trabalhadores, que serão demitidos. Mas se tudo der certo, ou seja, a União Europeia voltar atrás, tudo voltará a ser perfeito aos empregados do setor? Claro que não! Porque não basta ter emprego, é preciso ter segurança, e isso não vem ocorrendo no segmento de abate de suínos, aves e outros pequenos animais, especialmente na indústria do Vale do Taquari, formado por 36 municípios do Rio Grande do Sul.

Segundo balanço do Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho, desenvolvido pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e Organização Internacional do Trabalho (OIT), em cinco anos, entre 2012 e 2017, a região sofreu 2.265 sinistros nas atividades de abate. A cada dia, pelo menos quatro pessoas sofrem algum tipo de acidente de trabalho. Nos anos da pesquisa, os trabalhadores do setor de abate de suínos, aves e outros pequenos animais dos municípios do Vale do Taquari registraram 2.265 Comunicados de Acidente de Trabalho (CATs). A quantidade corresponde a 25,6% das 8.831 ocorrências envolvendo todas as atividades econômicas da região. Só em Lajeado foram 888 notificações entre 2012 e 2017.

É também esse o ramo profissional com mais auxílios-doença no município: 56, de acordo com dados do Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Sul (MPT-RS). Em geral, a maioria dos casos é de corte em dedos e na mão, geralmente pequenos. A entrada em vigor em 2013 da norma regulamentadora (NR 36), que trata da segurança e saúde no trabalho de abate e processamento de carnes e derivados, ajudou na redução do número de acidentes, mas não foi suficiente para alterar drasticamente o número dos infortúnios laborais dessa categoria. O texto da norma apresenta várias recomendações em relação à ergonomia, com mobiliário para o exercício das atividades, altura dos estrados, tamanho de passarelas e plataformas, manuseio de animais e produtos, manutenção de máquinas e condições no ambiente de trabalho. Infelizmente, os pequenos frigoríficos ainda têm dificuldades para se adequarem aos requisitos da NR 36, com melhorias da área de desossa, que resulta em muitas ocorrências de lesões por esforço repetitivo, também chamadas de distúrbios osteomoleculares relacionados ao trabalho (LER/Dort). O ritmo massacrante de produção nessas empresas acaba em tendinites, bursites e síndrome do túnel do carpo, em função dos movimentos repetitivos, até quadros de depressão, síndrome do pânico e ansiedade.

Em nome do emprego de milhares de trabalhadores do setor frigorífico, sugiro que o governo resolva o embargo das exportações com a União Europeia. E em nome da saúde e segurança desses mesmos trabalhadores, recomendo que a fiscalização do Ministério do Trabalho não se esqueça de percorrer as empresas do Vale do Taquari e descubra se estas estão cumprindo com a NR 36.

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