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Comissários de bordo: mais riscos, menos glamour

Por Emily Sobral

Twitter: @EmilySobral       Periscope: @emiliasobral61

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A cansativa vida do comissário de bordo (Foto Pixabay)

Presenciei uma cena na última viagem que fiz de avião que, na hora, fiquei ‘bege’.

Já estava sentada na poltrona quando vi uma senhora entrando na aeronave com uma bagagem de mão. Quando identificou seu assento, ela levantou a mala para colocar no compartimento superior. Não era grande, mas parecia pesada, então, ela teve dificuldade para levantar a bagagem. Chego à cena: eis que um comissário que passava pelo corredor, viu a dificuldade dela, ainda assim, não se dispôs a ajudá-la. Fingiu-se de morto! Foi, por fim, que um passageiro terminou ajudando-a. Não estou inventando esta história. Mas, depois que tomei conhecimento da pesquisa de Heloísa Machado, doutoranda em ergonomia da Universidade Federal de São Carlos, que estudou as condições de trabalho dos comissários de bordo, faço algumas suposições acerca da postura do profissional, dando-lhe alguns descontos. Será que o comissário não se encontrava, naquela ocasião, trabalhando, mas com uma tremenda dor na coluna? Talvez ele tenha apenas tentado preservar-se, para não piorar sua situação.

Pois é, a pesquisa de Machado desmistifica o glamour que as pessoas imaginam sobre a vida laboral dos comissários de bordo. Na verdade, há diversos fatores na organização do ambiente do trabalho de quem vive nas alturas que afetam a saúde desses profissionais.

Segundo a legislação brasileira, em viagens nacionais, o limite de tempo de voo do trabalhador é de nove horas e trinta minutos, sendo permitidos, no máximo, cinco pousos por dia. Como é óbvio, apesar das regulamentações nacionais e internacionais, há excesso de horas de trabalho, em função de faltas das equipes. E a sobrecarga das tarefas realizadas a bordo também podem causar danos à saúde.

Os comissários estão expostos a alguns fatores biomecânicos, como levantar bagagem dos passageiros, puxar e empurrar o carrinho do serviço de bordo, dificuldades de alcançar passageiros que estão acomodados nas poltronas próximas às janelas, permanecer em pé ou caminhando durante todo o voo. “Se o comissário fizer cinco viagens, vai repetir todas as tarefas por cinco vezes, e quanto mais curto for o percurso, mais rápido terá que fazê-las. São todas atividades repetitivas, mas com muita intensidade, e isso pode gerar desgaste físico, muscular e até psicológico”, explica a doutoranda.

Durante o voo, eles estão expostos à vibração no momento da decolagem e pouso, aos ruídos das turbinas, à baixa umidade e qualidade do ar, devido ao ar condicionado e também à pressurização interna. As consequências podem ser lesões e desconforto no pescoço, no ombro e coluna lombar, problemas respiratórios, dores de cabeça e até perda de audição. Embora esses agentes sejam inerentes aos ambientes das cabines, uma forma de minimizar os problemas é reduzir a exposição dos profissionais a esses fatores de risco. Quanto maior a exposição, maior é a probabilidade de ocorrer agravo à saúde.

Alguns estudos recentes estão enfatizando a questão também dos danos à saúde psicológica desses profissionais. Algumas causas estão relacionadas aos conflitos familiares por causa das longas jornadas de trabalho, com longas ausências. A depender da escala de trabalho, o comissário pode ficar muitos dias sem voltar para casa, o que pode levá-lo ao sentimento de isolamento e solidão. Além disso, o trabalho tem como característica o relacionamento com o público, o que exige dos profissionais habilidades no trato com os seres humanos. Eles passam por diversas situações, como, por exemplo, passageiros agressivos, que causam desgaste psicológico. Vale lembrar que depois do 11 de setembro de 2001, os procedimentos de segurança de voo e de passageiros tornaram-se mais complexos e rigorosos. Os comissários têm uma função que é a segurança do voo, assim devem observar cada passageiro que entra na aeronave, impedindo o embarque daqueles suspeitos.

“São procedimentos que acabam adicionando mais tarefas aos comissários”, afirma. Diante das exposições nocivas, eles precisam, em certas circunstâncias, impor limites, inclusive aos passageiros que precisam de ajuda para levantar a bagagem.

6 Comentários

  1. Claybe.

    Prezada Emily, bom dia. E se tem um(a) profissional que não perde a compostura e o alinhamento no andar e no se vestir está os comissários(as) de bordo. Uso o exemplo de repetição e procedimentos (desses profissionais) em palestras para mostrar que faz parte de uma atividade que é estressante e exigente, lembrando sempre que o sorriso no rosto é uma marca registrada, com dor ou mau humor.
    Uma boa reflexão e compreensão.
    Grato, sou por mais essa oportunidade.

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