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Combate a incêndio em ambiente confinado: perigo à saúde dos bombeiros

Considero o combate a incêndio uma tarefa heroica, especialmente os de grandes proporções. Há, porém, o combate em ambiente confinado que é muito arriscado aos profissionais. Esse tipo de incêndio ocorre em estruturas de edificações urbanas, atingindo seus compartimentos e gerando altíssimas temperaturas com concentração de fumaças e gases. Com a experiência de 31 anos atuando como bombeiro voluntário em Joinville, SC, Luciano Mendonça Seiler, que também é engenheiro, escolheu um tema para sua pós-graduação que aborda a saúde e segurança do trabalho do bombeiro, que já queria escrever. “A determinação de tempos de trabalho e descanso para bombeiros em situações de combate a incêndios estruturais” é o título da pesquisa de Seiler, que comento neste post.

Segundo ele, durante um combate a incêndio em ambientes confinados, os bombeiros são submetidos a intenso esforço físico e térmico, levando-os rapidamente à exaustão. “Os efeitos do stress e exaustão térmica podem levar a consequências graves à saúde dos profissionais, em curto espaço de tempo, com casos mais graves, podendo ser até irreversíveis”, afirma. Estima-se que esse tipo de incêndio seja de cerca de 30% do total de incêndios registrados, a depender das características urbanas. Medições e simulações apontam que a temperatura do ar nesse tipo de sinistro atinja de 500 a 700 ºC. Ou seja, quente demais!

Em sua monografia, Seiler argumenta sobre a necessidade de se determinar um tempo de trabalho e descanso nesse tipo de combate, para preservar a saúde e a vida dos bombeiros. Ele sabe o que está dizendo pelos anos de atuação como bombeiro: “Combater incêndios é uma atividade extenuante, que se desenvolve em condições ambientais extremas, o que exige intensa atividade física, elevadas taxas de recebimento de calor por irradiação e convecção, e quase nula perda de calor corporal pelo mecanismo termorregulador de evaporação de suor. O intenso trabalho realizado gera calor metabólico corporal elevado que, segundo o anexo 3 da NR15 (quadro 3) para atividades de trabalho pesado, excede os 440Kcal/h”, explica.

Os ambientes interiores em chamas, com portas e janelas fechadas, características do confinamento, proporcionam altíssimas taxas de transferência de calor ao corpo do combatente. Na fase de generalização do incêndio, a taxa de transferência de calor por irradiação é da ordem de 10 kW/m2. Para se ter a dimensão dessa grandeza, um fluxo de aproximadamente 4,5 kW/m2 causaria queimaduras de 2º grau em cerca de 30 segundos para uma pele exposta sem proteção. Também as taxas de transmissão de calor por convecção são perigosas.  O ar quente não constitui por si só um risco aos bombeiros, pois não pode reter por si só demasiado calor. Em contrapartida, o vapor e ar quente carregado de umidade são capazes de produzir queimaduras graves, devido ao vapor de água armazenar maior quantidade de energia calorífica que o ar seco.

Em sua monografia, o bombeiro explica que, na extinção de incêndios, o stress por calor é incrementado pelas propriedades isolantes das roupas de proteção, dificultando a perda de calor corporal pela evaporação do suor. O calor pode produzir lesões locais em forma de queimaduras ou provocar stress térmico geral, com consequente risco de desidratação, golpe de calor e colapso cardiovascular.

Sobre o esforço físico nas operações de combate, Seiler explica que se mantém em níveis relativamente elevados e constantes, cuja consequência é uma maior frequência cardíaca média de mais de 150 batimentos por minuto e elevação de temperatura retal da ordem de 1,3 ºC. “Toda exigência adicional originada pela necessidade de se resgatar vítimas, ou pelo incômodo do equipamento de proteção individual, produz uma redução do rendimento. Dessa forma, considerando as altas taxas de calor recebidas do ambiente, a alta taxa de geração de calor metabólico e quase nula perda de calor, tem-se acúmulo de energia térmica no interior do EPI, com consequente rápida elevação da temperatura corporal, a valores perigosos. Assim, antes que a temperatura corporal interna atinja esses valores próximos aos limites (cerca de 39 ºC), deve-se proporcionar a retirada do bombeiro do ambiente, proporcionando tempos e condições de descanso adequadas para permitir que as temperaturas internas retornem aos patamares normais, antes que se faça nova entrada ao ambiente sinistrado”.

Para incluir neste post a questão dos EPIs existentes no mercado hoje, perguntei para Seiler se estes são suficientes para proteger o bombeiro em ocorrências com essas características. Ele diz que, embora não exista ainda uma norma brasileira específica para vestimentas para bombeiros para combate a incêndios, atualmente, no CB 32 da ABNT, há duas comissões que se reúnem mensalmente para a elaboração de normas voltadas a vestimentas e capacete de combate a incêndio. “Há, no entanto, normas internacionais de referência, como, por exemplo, a NFPA 1971, Standard on Protective Ensemble for Structural Fire Fighting [Padrões para dispositivos de proteção a combate a incêndios estruturais] e muitas roupas comercializadas no Brasil possuem certificação conforme essa norma”, afirma.

Sem dúvida, a pesquisa do engenheiro e bombeiro é de grande relevância e, num próximo post, escreverei sobre os resultados do estudo.

Por Emily Sobral

2 Comentários

  1. Claudia

    Ah, Emily, que interessante a pesquisa desse bombeiro-engenheiro! Você sempre trazendo informações importantes ao nosso meio. Vou aguardar o post sobre a conclusão do estudo dele. Parabéns!

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