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“Cara, eu tô trabalhando, eu tô estressado aqui. Falta tudo”: quando o médico torna-se o paciente

Um médico que foi filmado quando entrou em desespero ao receber mais um paciente no Hospital de Base de Brasília, na semana retrasada, por não ter estrutura para atendê-lo deixou milhares de telespectadores perplexos. Com o hospital lotado, o profissional se exaltou na hora em que os bombeiros chegaram com mais um paciente.  “Cara, eu tô trabalhando, eu tô estressado aqui. Falta tudo”, gritava desesperado o médico que, inclusive, recebeu voz de prisão. Em geral, nesses casos, em que pacientes chegam aos prontos socorros precisando de assistência imediata e não são logo atendidos, há uma tendência natural das pessoas em apoiarem o sofrimento do paciente. Mas, nesse caso, não. O que houve, na verdade, foi certa comoção em favor do médico.

Abro este post abordando o fato, que tem sido recorrente entre os profissionais de saúde e seus pares, especialmente quando o assunto é levado aos congressos sobre saúde e segurança do trabalho. “O caso do colega médico é muito similar a uma situação conhecida como síndrome do esgotamento profissional, ou Síndrome de Burnout. Esse quadro é descrito na literatura mundial como relacionado à exposição crônica a estressores ocupacionais entre profissionais que interagem com o público, como prestadores de serviços em educação (professores), saúde (médicos, profissionais de enfermagem), segurança pública (policiais). Provavelmente, o desgaste que ele sofreu é recorrente naquela unidade e, portanto, outros profissionais expostos às mesmas condições podem desencadear quadros semelhantes”, explica João Silvestre da Silva-Júnior, médico do trabalho e pesquisador na área.

Segundo ele, os trabalhadores da área da saúde, de uma maneira geral, estão expostos a diversos estressores ocupacionais. Entretanto, aqueles relacionados aos aspectos psicossociais são mais agressivos à saúde desses trabalhadores. Os fatores que originam a síndrome, sem dúvida, são as longas jornadas, trabalho em turno noturno, equipes insuficientes, lidar com o sofrimento e morte, muitas demandas e pouco controle sobre o trabalho e esforços excessivos com baixas recompensas enfrentados no dia a dia.

Para combater esse mal entre a categoria, justamente dentro da área da saúde, primeiramente, os gestores deveriam reconhecer a presença dos estressores psicossociais, que estão mais presentes em organizações de trabalho mal gerenciadas. “Só depois de haver um maior controle dos fatores de risco é possível trabalhar com prevenção de adoecimentos. Na outra ponta do processo, é necessário dar um suporte àqueles que estejam fragilizados por estarem se expondo a uma condição de trabalho inadequada. Esse suporte envolve desde um canal de comunicação direta com os gestores, até acesso a atendimento especializado”, explica.

Hoje, no Brasil, os principais agentes estressores aos médicos são estrutura física inadequada dos locais de atendimento, falta de equipamentos e materiais que fazem com que o profissional médico não consiga desempenhar suas atividades da melhor forma possível. Para João Silvestre, é um erro pensar que cabe ao profissional gerenciar sua relação com o estresse ocupacional. Principalmente, entre profissionais com pouca autonomia no desempenho do trabalho, em que não lhes é dada margem de segurança para estabelecer limites no desempenho do trabalho. Entretanto, segundo a literatura científica, a realização de atividades físicas, manter hábitos saudáveis, ter uma rotina de higiene mental (hobbies, meditação etc) pode diminuir o risco de trabalhadores virem a sofrer o desgaste físico-mental causado pelo trabalho. Todavia, cada vez que esses profissionais se expuserem àquelas condições de trabalho inadequadas, estarão susceptíveis ao desgaste.

Para melhorar as situações de trabalho do profissional médico em serviços hospitalares de urgência e emergência, João lembra que o Conselho Federal de Medicina publicou uma resolução que normatiza o dimensionamento da equipe médica e do sistema de trabalho (http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/CFM/2014/2077_2014.pdf). “Entretanto, há diversos outros componentes do processo de trabalho que precisam ser dimensionados pelos profissionais de saúde e segurança do trabalho, para que sejam reconhecidos os riscos ocupacionais e traçados os planos de ação para mitigar tais situações, antes que desencadeiem e agravem problemas nos trabalhadores”, avalia.

Por Emily Sobral

Um Comentário

  1. João Silvestre da Silva-Junior

    O Burnout está cada vez mais presente nos ambientes de trabalho. Os profissionais de SST precisam aprender a reconhecer os riscos e trabalhar para os mitigar!

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